"Nihil humani a me alienum puto" "...nada do que é humano me é estranho." Publio Terêncio Afro
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
quinta-feira, 30 de outubro de 2025
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Ubuntu: “Eu sou porque nós somos”
A palavra Ubuntu vem das línguas africanas bantu e nguni e expressa uma ideia extremamente poderosa: “Eu sou porque nós somos.” Essa frase resume uma filosofia de vida originária de várias comunidades do sul da África, que entende que ninguém é completamente humano sozinho — nós existimos em relação com os outros. Enquanto muitas sociedades modernas valorizam o individualismo, a filosofia Ubuntu coloca o coletivo, o respeito e a solidariedade em evidência. Ela nos lembra que o que acontece com uma pessoa afeta a todos e que o bem comum deve prevalecer sobre os interesses egoístas.
A palavra Ubuntu, que não tem uma tradução direta para outros idiomas, exprime a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade. Segundo o arcebispo anglicano Desmond Tutu, autor de uma teologia baseada no Ubuntu, "a minha humanidade está inextricavelmente ligada à sua humanidade". Essa noção de fraternidade implica compaixão, abertura de espírito e oposição ao narcisismo e ao individualismo.
Uma sociedade sustentada pelos pilares do respeito e da solidariedade reflete a essência do Ubuntu, uma filosofia africana que destaca a importância das alianças e dos relacionamentos entre as pessoas. Na tentativa de traduzir o conceito para o português, Ubuntu pode ser compreendido como “humanidade para com os outros”. Uma pessoa que vive o Ubuntu tem plena consciência de que é afetada quando seus semelhantes são diminuídos ou oprimidos.
— O mundo não é uma ilha: “Eu sou porque nós somos”. Eu sou humano, e a natureza humana implica compaixão, partilha, respeito e empatia — detalhou em entrevista ao Por Dentro da África Dirk Louw, doutor em Filosofia Africana pela Universidade de Stellenbosch (África do Sul). Dirk explica que não há uma origem exata para a palavra. Estudiosos frequentemente se referem ao Ubuntu como uma ética “antiga” que vem sendo praticada "desde tempos imemoriais".
Alguns pesquisadores especulam que o Ubuntu possa ter raízes no Egito Antigo (parte de um complexo de civilizações que incluía as regiões ao sul do Egito, hoje Sudão, Eritreia, Etiópia e Somália). No entanto, o conceito é majoritariamente associado à África Subsaariana e ao grupo etnolinguístico banto, predominante nessa região.
Na essência, o fundamento tradicional do Ubuntu articula um respeito básico pelos outros. Ele pode ser interpretado como uma regra de conduta ou uma ética social, descrevendo o ser humano como um “ser-com-os-outros” e prescrevendo que esse modo de existência deva ser fundamental. Dessa forma, o Ubuntu acrescenta uma perspectiva distintamente africana a uma visão descolonizada da humanidade. Na política, o conceito é invocado para reforçar a necessidade de união e consenso na tomada de decisões, bem como na prática de uma ética humanitária.
Dirk lembra que o Ubuntu também tem um aspecto religioso, fundamentado na máxima zulu umuntu ngumuntu ngabantu (uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas). Embora aparentemente sem conotação religiosa à primeira vista para a sociedade ocidental, a máxima está profundamente ligada à ancestralidade.
A filosofia do Ubuntu abarca o respeito pela religiosidade, pela individualidade e pela particularidade do outro. O conceito valoriza o acordo ou consenso nas decisões. A cultura tradicional africana parece ter uma capacidade quase ilimitada para buscar a reconciliação e o consenso. Ainda que haja hierarquias de importância entre os oradores, cada pessoa possui a mesma oportunidade de falar até que algum tipo de acordo, consenso ou coesão seja alcançado. Esse objetivo é reforçado por palavras como Simunye (“nós somos um”, ou seja, “a união faz a força”) e slogans como “uma lesão é uma lesão para todos”.
O Uso do Ubuntu na Democracia da África do Sul
Após quase cinco décadas de segregação racial institucionalizada, o processo de reconstrução da África do Sul no pós-apartheid demandava igualdade universal, respeito aos direitos humanos e valorização das diferenças. Nesse contexto, a ideia de Ubuntu esteve intrinsecamente ligada à luta contra o regime que negava a cidadania e os direitos às populações negras. Como uma filosofia baseada na reciprocidade, no respeito mútuo e na solidariedade, o Ubuntu tornou-se um valor central nas iniciativas de reconciliação e no caminho para a construção de uma sociedade mais igualitária.

